sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Webfashion entrevista Maria Stella Splendore e Krishna

Há um bom tempo ela curtia o sossego de sua casa cor-de-rosa, em um santuário indiano no interior de São Paulo, porém interrompeu sua prática filosófica e religiosa no Hare Kishna para escrever sobre fé e a São Paulo dos tempos da Jovem Guarda. No livro Uma história de vida, La Splendore mostra que ainda tinha muito a contar.

Ela é considerada a primeira top model do Brasil. Muito antes de übermodel ser uma palavra universal, ela já desfilava no jet-set Paris-Milão-São Paulo. Maria Stella Splendore, 60 anos, 2 filhos e 5 netos, foi modelo internacional, atriz, apresentadora, júri de TV e cantora.

Após quatro casamentos, um romance com o rei Roberto Carlos e quase 20 anos fora do Brasil, vivendo entre as belezas da Índia e correndo de furacões na Flórida, ela retorna aos holofotes, para lançar sua primeira autobiografia.

Tudo começou em meados da década de 1960, quando aos 16 anos dois vestidos de noiva fizeram Maria Stella celebridade nacional. O primeiro usou na passarela de um ícone para a época, o estilista Dener Pamplona de Abreu, eleito o melhor costureiro do mundo, nos EUA. Entendido como o primeiro papa da alta costura nacional, antes de Dener só ostentava roupa fina quem mandava trazer da França.


Com prefácio assinado pelo apresentador, jornalista e amigo de longa data Amaury Jr., o livro 'Sri Splendore – Uma história de vida' (114 páginas, edição independente, R$ 38) narra sua infância, fama e experiências no despertar no Movimento para a Consciência de Krishna. As páginas escritas por Maria Stella trazem lembranças de São Paulo, quando a cidade tinha mais cara de província, que de metrópole. Uma São Paulo cheia de moda, que ainda desenhava a avenida 23 de maio, esbanjando casarões centenários e a elite paulistana de ricos, poderosos e futuros famosos. Nos festivais de música, Hebe Camargo se preparava para ser rainha da TV, enquanto Roberto Carlos recebia o cetro de rei.

Quando se conheceram, Roberto Carlos mostrou a Maria Stella diversas músicas do que seria seu sexto long play. Antecipou, por exemplo, a faixa 'Querem Acabar Comigo', que, segundo ela, fazia alusão a Ronnie Von, alçado à condição de príncipe da Jovem Guarda.

E são justamente as 15 páginas do capítulo 'Vida de Celebridade' que causam tanto alarde. É nele que Maria Stella relata o alvoroço da mídia na cobertura de seu casamento com Dener, como conheceu Roberto Carlos e o nascimento da filha Maria Leopoldina, que até hoje não se sabe de qual dos dois reis é filha. Mas é nas entrelinhas do iê-iê-iê que se desvenda o que de fato inspirou Roberto nas melodias do hit 'Namoradinha de um amigo meu'.

Convertida à religião Hare Krishna, em 1981 ficou encantada com um livro chamado Cante e Seja Feliz, uma conversa entre os Beatles e Srila Prabhupada, guru indiano que trouxe a religião para os EUA.

Se antes, Maria Stella virava a noite para acompanhar o pique notívago de Dener, hoje acorda às 3h30 da madrugada em sua casa cor-de-rosa para rezar. Moradora da fazenda Nova Gokula, em Pindamonhangaba, ela acorda cedo, faz alguns exercícios de respiração, uma leve refeição e recita o mahamantra Hare Krishna:

Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare, Hare Rama / Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.

As 16 palavras, cantadas a um ritmo de 4 segundos por estrofe, são repetidas 1.728 vezes, durante duas horas, todos os dias.

O Hare Krishna é uma tradição que combina filosofia à prática religiosa. Segundo Maria Stella, a religião ensina, sobretudo, a amar os nomes de Deus. "Seja ele Krishna, Jesus, Oxalá ou Jeová, estamos falando do mesmo Deus. Os ensinamentos deixam claro que você pode seguir qualquer religião. O importante é desenvolver amor puro por Deus e ater-se corretamente às suas leis."

"Uma pessoa pode ou não conhecer todos os significados do Hare Krishna, mas se o canta, liberta-se das atitudes que não fazem bem. 'Cante Hare Krishna e seja feliz! Você pode cantar a qualquer hora ou lugar. Experimente. É de graça!''

Herdeira de milionários, Maria Stella Splendore hoje vive de rendas. Mesmo com um pé na terra e outro no céu, por hábito ainda não conseguiu se desvencilhar do mundo da moda. 'É como já dizia a minha mãe, não pode andar de tênis quem nasceu para usar salto. Confesso que ainda tenho uma quedinha por sapatos e pela alta costura.' Sua marca favorita: Roberto Cavalli. RC também, por acaso.

Maria Stella Splendore é símbolo de beleza e moda, há uma sofisticação natural ligada à sua imagem, como a moda passou a integrar sua vida?
MSS Obrigada. Acho que herdei a sofisticação de minha mãe que era uma mulher muito elegante. Mas também por minha natureza, que é sofisticada. A moda passou a integrar minha vida por casualidade, quando Dener me treinou para ser a primeira menina modelo do Brasil.

Ser casada com Dener Pamplona a colocava num lugar privilegiado, ambicionado por muitas mulheres na época, além do amor, que benefícios e conseqüências este privilégio te trouxe?
MSS É muito difícil viver exposta ao grande público. Meu maior privilegio é o espaço que até hoje tenho aberto com a mídia.


Em tempos em que a moda não era levada a sério no país, e que se vestir com marcas e estilistas estrangeiros era praticamente uma obrigação, quais as dificuldades encontradas por um criador tão extraordinário quanto Dener, e uma modelo com tanto talento e carisma quanto Maria Stella Splendore?
MSS Quando eu encontrei com Dener em 1965 ele já era o líder da moda no Brasil e vestia a maioria das mulheres da sociedade brasileira. Dener havia sido o figurinista de primeira-dama Maria Thereza Goulart e já era considerado um mito.

Dener e você ajudaram a elevar a moda brasileira a um patamar inimaginado até então, conseguiram romper barreiras culturais e fronteiras, isto certamente abriu portas para estilistas, marcas e modelos que agora colhem frutos com a valorização internacional da moda brasileira; de que maneira você vê esta evolução? Tem contato com criadores e marcas nacionais?
MSS Claro que sim... O Brasil infelizmente nunca teve memória de sua própria historia seus talentos e mitos, ainda menos. Mas com certeza Dener foi o pioneiro da moda no Brasil. Hoje com a globalização, internet a evolução foi rápida e mais fácil aparecer. Sim, sempre que posso vou aos eventos de moda.

Ainda há em seu armário muitas criações do Dener? Há alguma criação que seja especial, que tenha alguma história ligada a ela? Pode nos contar?
MSS Tenho sim algumas peças... Ainda tenho meu vestido do casamento civil, que guarda com ele uma história de conto de fadas!

A inevitável comparação do remake da novela TI TI TI, onde a rivalidade entre dois estilistas, Jacques LeClair e Victor Valentim parece ter sido inspirada na lendária rivalidade entre Dener e Clodovil, a incomoda? Até que ponto isto é verdade ou lenda? Ainda sobre esta lendária ou fictícia rivalidade... já usou algum modelo assinado por Clodovil?
MSS Na verdade Dener e Clodovil nunca se relacionaram além de entrevistas e tititis... Clodovil nunca freqüentou nossa casa e nunca foi amigo de Dener. Tive, sim, um vestido criado pelo Clodovil em 1973 que use para um casamento.

O nome Maria Stella Splendore sempre foi ligado à sofisticação, luxo e badalação, sua nova postura de vida, a sua renovação espiritual surpreendeu a muitos, há ainda espaço para a moda em sua vida?
MSS Sim, e de uma forma muito natural. Há um mito de que devemos estar em vida reclusa, que funcione a parte da sociedade. Não é bem assim. Tudo é permitido, desde seja usado em consciência de Krishna.

A internet, as mídias sociais, e as novas formas de se criar moda com programas de computação, e divulgá-la virtualmente, ampliaram o alcance e democratizaram a moda, como vê esta revolução? O que sente ao perceber que se for feita uma pesquisa com o seu nome e o do Dener, por exemplo, há milhares de citações? Acha que a memória do trabalho de ambos está sendo respeitada?
MSS É uma nova época, os valores são diferentes e as oportunidades maiores... Quanto à memória, de certa forma, sim. Porque, afinal fazemos parte da história da moda do Brasil. Interpretação e especulação sempre existiu e sempre existirá. Se podemos chamar isso de falta de respeito...



Fontes: Introdução: Harlley Alvez, Fotos: arquivo pessoal, Entrevista: Susi Guedes, fórum Krishna-katha, portal WebFashion do UOL
.

Compartilhar

Nenhum comentário:

Postar um comentário