terça-feira, 8 de novembro de 2011

Entrevista com o guru Indradyumna Swami no Diário de Pernambuco

Durante estadia no Recife para o Magic India, o guru Indradyumna Swami concedeu entrevista ping-pong(pergunta e resposta) de página inteira para o Diario de Pernambuco.

Na página 2 - espaço reservado para políticos, filósofos, escritores, cineastas, economistas, pensadores. Uma página disputada a tapa e o Swami conseguiu!

Sugiro, sincera e humildemente, aos devotos do Recife que celebremos comprando o jornal. Mostrando-o, guardando-o.

Aos que estão fora, e não poderão comprar ou ler, pois o conteúdo online é protegido por senha, segue a entrevista abaixo e um arquivo de imagem para que possam apreciar como a página ficou bonita!

(Clique na imagem para ampliar)

Diário de Pernambuco
Entrevista Especial com guru americano Indradyumna Swami


Tatiana Meira

Recife, segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Imagem: LAIS TELLES/ESP DP/D.A PRESS

A vida de um monge andarilho

Brian Tibbitts acredita que a vida é uma questão de equilíbrio. Na juventude, abandonou os ideais da democracia norte-americana, renunciando ao sexo, drogas, bebidas, carne, para levar uma rotina bem diferente de outros da sua idade. Em dezembro de 1971, no auge da contracultura, o ex-fuzileiro naval e ex-surfista ingressou no movimento Hare Krishna e foi batizado como Indradyumna Swami, mesmo nome de um rei da tradição milenar da Índia, onde foi morar em busca de conforto espiritual. Hoje, aos 62 anos, já lançou 11 livros compilando suas experiências em viagens pelo mundo, onde leva o festival Magic India, que ajudou a criar na Polônia, duas décadas atrás. Música, danças clássicas, percussão, mantras, yoga estão no espetáculo, que por duas noites lotou o Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu, na semana passada, dentro da segunda turnê pelo Brasil. Ele atualiza pessoalmente sua página na internet, no endereço www.travelingmonk.com. Ele pratica mantras devocionais por pelo menos duas horas, todos os dias.
“É um remédio para a ansiedade, afeta os sentidos, a forma como percebemos o mundo”, ressalta Indradyumna, que medita com uma Japa, colar de 108 contas, equivalente ao rosário para os católicos.

“Tudo que tenho cabe em uma mochila”

Você acredita na possibilidade de o mundo encontrar a paz?
A história da humanidade é cheia de ódio porque só olhamos as diferenças. De muitas maneiras, somos realmente diferentes. Mas há uma coisa que temos em comum: todas as almas são iguais em qualidade e vêm de uma única fonte, pois todos somos criaturas de Deus. Somos irmãos e irmãs, espiritualmente. Não existe porque lutar se pensarmos que somos uma só família. É a lei do carma e da natureza. Se você faz o bem ou o mal, ele se volta para você. Não devíamos machucar os outros seres humanos, animais, plantas.

Quantas vezes já esteve no Brasil e qual a sua relação com o país?
Esta é minha terceira viagem ao Brasil. Minha primeira foi em 1988, quando a Iskcon (ou Movimento Hare Krishna) já se espalhava por São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília. Mas ainda não havia devotos Hare Krishna na Amazônia. Como pregador, fui, então, a Manaus com um pequeno grupo e conheci o governador do Amazonas e sua esposa. Eles nos emprestaram um barco enorme por alguns meses, nos forneceram combustível e comida. A tripulação veio do Rio de Janeiro. Ficávamos cantando o mantra Hare Krishna, distribuindo prashadam (comida que antes oferecemos a Deus, como agradecimento). Foi uma experiência maravilhosa, que me fez ficar apaixonado pelo Brasil. É um país especial, de clima muito bom, de pessoas muito amáveis, afetuosas. É o único lugar do mundo onde ando pela rua e as pessoas me abraçam, me beijam, me param para tirar fotos.

Em que outro lugar você teve experiência parecida?
Fui para a Rússia, ainda sob o regime comunista. Tive que mudar de roupa, usar um disfarce de homem de negócios, com terno, peruca, bigode. Porque se alguém fosse pego pregando, era mandado para 20 anos de trabalhos forçados na Sibéria. Conhecia pessoas que professavam outras fés e foram pegas pelo governo. Era um ambiente muito perigoso, com reuniões acontecendo escondidas, na casa das pessoas. De repente, a KGB batia na porta e precisávamos sair correndo, para procurar esconderijo na neve.

Por que você começou a fazer o festival Magic India na Polônia e não em outro país?
Porque a Europa Oriental por muito tempo foi comunista. E a costa do Mar Báltico é uma área muito povoada, lotada de gente, mas sem opções de entretenimento, mesmo 20 anos após a queda do regime político anterior. Montamos de 30 a 40 tendas ao ar livre e reunimos até 5 mil pessoas, durante dois meses. As pessoas vêm por motivações diferentes, mas tenho a tendência de gostar de países onde se tem a mente aberta, as pessoas são piedosas, bondosas. Medimos nosso sucesso pela capacidade de fazer os outros felizes.

Existe algum país onde o movimento Hare Krishna nunca tenha chegado?
Talvez no Iraque, Líbia, Arábia Saudita. Existem alguns devotos, mas estes países têm governos muito difíceis.

Como é a vida de um monge na prática? Como o senhor faz para se manter financeiramente?
Com 24 anos, segui o chamado e me tornei um monge. Não tenho conta no banco nem seguro. Tudo que tenho cabe em uma mochila. Menos é mais. Em minhas viagens me sinto protegido por Deus (Krishna). Sempre encontro amigos e tenho onde me hospedar. Não costumo permanecer mais de três dias no mesmo lugar, pois existe um famoso ditado norte-americano que diz: pedra que rola não acumula limo. Minha viagem é com o propósito de iluminar as pessoas, é uma responsabilidade grande. Há jovens que querem mergulhar de cabeça em uma vida assim, mas é preciso saber a hora certa, pois não é uma decisão fácil. Não existem tantos monges, mas temos a necessidade deles, de um líder que nos mantenha focado em nossos objetivos. Não esperamos que todos vivam como nós. É um desafio. Quando preciso de algum dinheiro, existe a congregação, os simpatizantes do movimento, a função deles é ajudar. Muitos são casados, têm empregos. O dinheiro é só um papel, depende de como se aplica. É igual a uma faca nas mãos de um ladrão ou de um cirurgião. Para levar uma vida simples, é preciso ter satisfação interna. Caso contrário, não funciona. Não sou melhor do que nenhum outro.

Quando decidiu mudar de vida e se tornar um monge?
Minha família não era religiosa, mas me senti atraído pelas diversas religiões desde o ensino médio. Queria saber quem eu sou, o que acontece após a morte, qual o meu lugar no mundo. Cheguei a me alistar na Marinha, mas tive a ideia de ir para a Índia, em busca das respostas para as minhas inquietações. Não conseguia respondê-las na cultura ocidental. Passei a seguir novas regras, aderi de vez ao vegetarianismo, não poderia mais me intoxicar (ingerir bebidas alcoólicas), nem possuir vícios, como jogar ou me drogar. Foi uma mudança dura, radical até. Com o tempo, fica mais fácil de seguir. Você adquire um gosto elevado.

Quando se tornou vegetariano?
Usamos a dieta vegetariana como uma forma de tornar o mundo melhor. Para nós, não é uma conduta apenas porque é mais saudável, mas sim uma compreensão filosófica, que vem das escrituras indianas. Acho hipocrisia ser bom para o seu cãozinho, mimá-lo, e chegar no supermercado para comprar outro animal para comer. A fisiologia do ser humano prova que ele não foi feito para comer carne. Até os médicos sabem que a ingestão exagerada de carne é uma das maiores causas de câncer. Me tornei vegetariano aos 14 anos, o que era algo incomum. Mas meu pai era vegetariano e eu o interpelava, dizendo que queria comer carne para ser forte. Ele exemplificava que o elefante era o maior animal da terra, o mais forte, e não come carne. Depois que ele me levou para conhecer um abatedouro de bois, passei a sentar do lado dele na mesa.

Como é sua relação com a internet? Como faz para atualizar seu site e desde quando publica seu diário online?
Fui um dos primeiros monges da Iskcon a usar a internet. As pessoas me escreviam, com dúvidas sobre a religião e a rede é um instrumento fantástico para a difusão do conhecimento. Eu mesmo atualizo os textos e nossa designer posta os vídeos e cuida do layout da página. Facilita muito a comunicação. Nos dias de hoje, não é mais tão comum ir para a Índia em busca de um guru como eu fiz. Ficar embaixo de uma figueira, estudando a filosofia. As pessoas precisam trabalhar e estudar, mas também querem usar a internet de maneira positiva. Chego a passar umas quatro horas por dia conectado.

Saiba mais

Nascido em 20 de maio de 1949, em Palo Alto, Califórnia, como Brian Tibbitts, Indradyumna Swami encarou a morte pela primeira vez ao se curar de uma meningite, aos quatro anos. Aos seis, presenciou a morte de um cachorro na vizinhança. E logo começou a pensar em questões relacionadas à natureza da vida e da morte, felicidade, angústia e o sentido da vida.

Sem conseguir encontrar as respostas em sua própria cidade, saiu de casa aos 16. Entrou para a Marinha norte-americana na tentativa de barrar o crescimento do comunismo no Vietnã. Um ano depois, por sentir que seu caminho era o da paz, se desligou da corporação.

Encontrou integrantes da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna (Iskcon), em 1971, em Detroit. Em uma semana, já liderava uma congregação para a prática de mantras e distribuía livros, como o Bhagavad-Gita, clássico milenar da filosfia indiana.

Morou na Índia, onde se reuniu com seu mestre espiritual e fundador da Iskcon, Srila Prabhupada. A partir de 1986, passou a viajar pelo mundo. Em 1995, para compartilhar suas experiências na dedicação à Deus, agrupou sua rotina no conteúdo do livro Diário de um monge ao redor do mundo (Sankirtana Books, 120 páginas).

Fontes: fórum Krishna-katha


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